Cresce busca pelas empresas por defesa contra dólar caro - 27/08/2013

Registro de operação contra variação cambial cresce mais de 40% ante 2012

 

Proteção usada por importadores funciona como seguro, em que o banco arca com toda a a diferença cambial

TONI SCIARRETTA
DE SÃO PAULO

27.08.13

 

As empresa brasileiras com dívida em dólar aumentaram em mais de 40% a contratação nos bancos de instrumentos de proteção contra a alta da moeda norte-americana, que já subiu 15,2% neste ano.

 

A maior parte das empresas é formada por importadoras de produtos e serviços, como leasing de equipamento, de médio e grande portes, que têm pagamento em dólar vencendo nos próximos meses.

 

A busca por proteção cambial (chamada de hedge) se intensificou em maio, mês em que a moeda americana saltou de R$ 2 para R$ 2,13.

 

Em maio, foram fechados contratos para proteger US$ 15 bilhões em dívidas com vencimento nos próximos meses, segundo a Cetip, empresa responsável pelos registros dessas operações. Em dezembro, antes dos solavancos no câmbio, foram registrados US$ 10,3 bilhões.

 

Para Fabio Zenaro, diretor da Cetip, as empresas que atuam no comércio exterior trabalham com limites flexíveis de quanto podem suportar a variação cambial sem prejudicar sua contabilidade.

 

"Quando esses limites são rompidos, como aconteceu em maio, elas vão aos bancos para segurar' a taxa de câmbio. E isso aumentou muito nas últimas semanas", disse.

 

A contratação de proteção cambial seguiu alta nos meses seguintes (veja quadro acima), bem acima da média de US$ 9 bilhões ao mês de 2012.

 

Até o dia 21, quando o dólar rompeu a barreira de R$ 2,40, os novos contratos de hedge somavam R$ 7,52 bilhões em agosto. A maior parte dessas operações é fechada no fim do mês.

 

Enquanto as operações feitas na BM&FBovespa são padronizadas, a Cetip registra contratos customizados de acordo com as necessidades de cada cliente. Na Bolsa, os contratos vencem na virada do mês, enquanto na Cetip o vencimento pode ocorrer em qualquer dia.

 

Ao todo, a Cetip contabiliza, até o dia 21, um estoque de 42.798 contratos, que totalizam R$ 164,7 bilhões em dívida protegida contra a variação cambial. Em dezembro, eram 34.490 contratos, que somavam R$ 140,4 bilhões.

 

MECANISMO

 

Para "congelar" a taxa de câmbio, a empresa faz uma cotação em diferentes bancos e fecha com aquele que oferecer o melhor preço. Normalmente, o banco embute o custo na cotação da divisa.

 

Se o dólar comercial estiver em R$ 2,38, como ontem, a instituição cobra um pequeno acrescimento e vende a moeda a R$ 2,40 para a data em que o cliente necessita.

 

Independentemente do valor do dólar nesse dia, o cliente pagará R$ 2,40. O que faltar (ou sobrar, se a moeda cair) fica por conta do banco.

 

Quanto maior o risco assumido pelo banco, que também vai procurar proteção na Bolsa, maior será o preço cobrado pela operação.

 

 

Moeda sobe a R$ 2,387, apesar de ação do BC

 

O dólar começou a semana em alta apesar da intervenção do Banco Central para conter os preços.

 

A moeda americana à vista, referência no mercado financeiro, fechou em alta de 0,76% ontem, a R$ 2,387. E o dólar comercial, usado no comércio exterior, subiu 1,31%, a R$ 2,384.

 

O BC negociou US$ 497,9 milhões em contratos de swap cambial, que equivalem à venda de dólares no mercado futuro, para tentar segurar a valorização do dólar.

 

A intervenção faz parte do programa da autoridade monetária de leilões diários com o objetivo de segurar as cotações da moeda americana.

 

De segunda a quinta-feira, são feitos leilões de swap cambial e, às sextas-feiras, leilões de linhas de crédito em dólar com compromisso de recompra no futuro.

 

MENOS FLUTUAÇÃO

 

Para economistas ouvidos pela Folha, porém, a medida do BC não deve ser suficiente para empurrar o preço do dólar para baixo: os leilões devem apenas amenizar a oscilação da moeda.

 

Guilherme Prado, especialista em câmbio da Fitta DTVM, diz que o cenário para o dólar não mudou, apesar da atuação do BC, em razão da recuperação da economia americana, que passa a atrair mais investimentos do que países considerados de maior risco, como os emergentes.

 

Assim, afirma Prado, a tendência do dólar é subir.

 

Ontem, a moeda americana se valorizou na comparação com 22 das 24 divisas emergentes mais negociadas. Apenas as moedas da Coreia do Sul (com leve alta de 0,06%) e do Peru (estável) não caíram ante o dólar.

 

"No Brasil, temos ainda outro ponto que contribui para a alta do dólar: um deficit muito elevado na nossa balança de pagamentos", acrescenta Prado, da Fitta.

 

QUEM PRECISA DE DÓLAR

 

Nesse cenário, quem precisa de dólares para compromissos no exterior até o fim do ano, como viagens, deve comprar a moeda o quanto antes e quitar a fatura, dizem consultores financeiros.

 

Se o horizonte for mais longo, como 12 meses, é possível fracionar a compra para obter um preço médio. (ANDERSON FIGO E DANIELLE BRANT)

 


Fonte: Folha de S. Paulo